Pesca Subaquática na Represa do Capivari

O texto a seguir foi escrito pelo médico André Esmanhotto.

Nunca havia praticado pesca subaquática. Não por falta de interesse, mas simplesmente porque nunca ninguém havia me convidado. Entretanto, esse dia chegou.

Era feriado de “Corpus Christi”, inverno em Curitiba. Meu amigo Márcio me convida para pescar lambari na represa do Capivari com seu pai e seu sogro. Seu pai era do tipo sério, poucos cabelos e palavras, ex-diretor de presídio. Seu sogro, Giraldo, era o oposto: brincalhão, extrovertido, bigode tipo Rui Barbosa, gostava de pescaria e era o nosso guia nessa empreitada. Aceitei o convite na hora, vesti roupa de frio, arrumei varinha, bóia e anzol e fomos no carro de seu Giraldo, ouvindo uma música sertaneja e batendo papo. No caminho era só piada de seu Giraldo, eta cara bacana, típico cara “gente fina”.

Achamos um bom lugar na beira da represa, próximo a um restaurante. Segundo seu Giraldo era o melhor pesqueiro do local. Montamos as varinhas, acomodamo-nos nas cadeiras e depois foi só alegria, um lambari atrás do outro e uma piada atrás da outra de seu Giraldo. Tudo estava muito bom. De repente Giraldo diz:

- Pessoal, lembrei. Tenho um barco guardado no galpão do outro lado do restaurante. Será que vamos pegá-lo pra dar uma volta?

(Pô, que pergunta, era óbvio que nós queríamos dar uma volta de barco).

Fui o primeiro a responder:

- Claro que sim, seu Giraldo, que ideia excelente, demorou, vamos, agora!

Ele respondeu:

- Calma, vou dar uma olhada como está o estado do barco e volto logo.

Que beleza de ideia, quem sabe conseguiria pegar um peixe bem maior de barco. Passaram-se uns 20 minutos, quando passa por nós uma lancha branca, em alta velocidade e dá um “cavalo de pau”. Era seu Giraldo, cabelos e bigode ao vento e cara de quem estava se divertindo demais. Saímos correndo, os três: eu, Márcio e seu pai, em direção à lancha. Entramos na bonita lancha: quatro bancos de couro branco, direção, pára-brisa, GPS, coisa de primeira. Seu Giraldo mostra pra nós um cardume passando no GPS, nunca tinha visto nada igual. Estava bom demais, confortável e divertido, todo mundo tava animado. Perguntei ao seu Giraldo porque ele não havia falado sobre a existência da lancha logo na chegada, e ele respondeu:

-Tinha esquecido ela, é que faz uns cinco anos que eu coloquei ela a venda, mas ninguém quis. Tem um cara que se interessou nela agora. Talvez ele compre.

Mas não importa talvez ele tivesse deixado para falar depois para deixar o passeio mais emocionante. Ele era desses que gosta de surpreender.

Seu Giraldo nos lembra de colocar os coletes salva-vidas, havia um pra cada um, novinhos, ainda embalados em saco plástico, fiquei até com pena de abrir o lacre. E dá-lhe velocidade na lancha. O plano era cruzar toda a represa. Reclinei-me no banco de couro branco e pensei: “essa é a vida que eu sempre quis: conforto, diversão e muitos amigos. Vou comprar um barco deste pra mim…”

De repente, o pai do Márcio, ex-diretor de presídio, que estava calado até então, diz:

-Giraldo, está entrando água no barco, é melhor você vir ver.

(O que é que isso pessoal? O cara era ex-diretor de presídio, já devia ter passado por vários apuros e agora se assustava com uma poça de água? Por alguns momentos duvidei de seu currículo…).

Seu Giraldo dá uma olhadinha para trás e diz:

-Nada, isso aí é normal, um pouco de água sempre tem.

Continuei curtindo o passeio até que, de repente, tudo mudou. Senti um gelado dentro do calçado. A poça de água no fundo do barco havia aumentado, mas ainda era pequena para gerar desespero.

Tranquilamente eu disse:

-Pessoal, tem alguma coisa errada, a água realmente está aumentando.

Seu Giraldo olha e, rapidamente, vai para a parte de trás do barco ver o que está acontecendo. Todos aguardam um parecer técnico do comandante, mas ele não fala nada. A partir daí, todos os meus pensamentos de que “era essa a vida que eu queria” começavam a ir embora e os acontecimentos a seguir se sucederam rapidamente:

Em 20 segundos a água já molhava meu tornozelo e a taquicardia aumenta. Em mais 10 segundos já estava na metade da canela e comecei a conferir se o colete salva-vidas estava bem amarrado e a empurrar as coisas dos bolsos para o fundo. Em mais 5 segundos a água já gelava o joelho e começava a lembrar de Titanic, em que Jack dá a dica para Rose pular longe do barco por causa do empuxo na hora em que o barco afunda. Em mais 5 estávamos de pé no barco, todo mundo se agarrando e olhando pro lago, só pensando como a água devia estar gelada e se havia piranha ali (e foi aí que a coisa piorou). Depois de levantarmos, o barco balançava de um lado pro outro e começou a verticalizar. Quando a lancha chegou a 30 graus de inclinação decidi que era hora de abandonar o barco literalmente. Pulei e fui seguido pelos demais, como uma “ola” de desespero coletivo, caímos na água gelada, exceto pelo pai de Márcio, o ex-diretor de prisão, que não queria sair do barco. Nessa hora o barco já estava à 60 graus de inclinação e o pai e Márcio começou a gritar:

- Socorro, me ajudem, não sei nadar!

Seu filho dizia:

- Pule pai, pule que o senhor está de colete! Vai boiar!

Mas o desespero não deixava o homem raciocinar. O barco à deriva já estava a 90 graus e quase completamente submerso mas ele não mostrava sinais de que iria soltar o barco. A cada centímetro que o barco afundava o seu desespero aumentava. A situação era relativamente engraçada porque sabíamos que é impossível morrer afogado usando colete salva-vidas. Isso era o que eu achava. Quando o barco afundou completamente, o homem já não tinha mais em que segurar-se e o desespero fazia com que se debatesse na água fazendo a água entrar pelo seu nariz. A partir daí a graça foi embora e comecei a pensar que algo trágico poderia ocorrer ali. Eu e Márcio começamos a nadar em sua direção, mas as braçadas não rendiam. Cada segundo parecia dez e demorávamos para chegar até ele. De repente, como num milagre, um dos bancos de couro se solta do barco já afundado e vem à tona bem ao meu lado. Peguei o banco e empurrei-o para o homem que se afogava. O banco foi boiando lentamente em sua direção e  ele o agarrou. Graças a Deus.

Olhamos para os lados. A margem da represa estava longe, uns 500 metros. Entretanto havia uma pequena ilha a uns 100 metros. Fomos nadando juntos: Eu segurando a gola do Márcio, Márcio segurando a gola de seu pai e seu pai o banco de couro. A roupa pesava e o nado com um só braço cansava (no meio do caminho já estava bem cansado e ofegante, a musculatura dos braços e pernas queimava e tinha que revezar entre nadar com o braço direito ou esquerdo no estilo costas ou nadar só com as pernas no estilo “rã”). Olhei para a ilha e lá estava, para a minha surpresa, seu Giraldo, em pé na ilha, tirando o colete e explorando o território descoberto (eita cara ligeiro pra nadar!). Mas, o resgatado não gostou nada de ver que seu Giraldo havia praticado o “salve-se quem puder”. Como se não bastassem dois salva-vidas, o ex-diretor de presídio ainda queria que seu Giraldo voltasse para a água para ajudar na operação de reboque. Indignado, começou a chamá-lo:

-Giraldo, venha aqui nos ajudar, não nos abandone Giraldo!

A situação era constrangedora, mas Giraldo sabia que não era necessário voltar para a água, pois tudo estava sob controle e vagarosamente também iríamos chegar a ilha.

Depois de cerca de 10 minutos nadando, finalmente chegamos a ilha. Lembro que nos primeiros minutos não tinha força nas pernas para ficar em pé. Tive que ficar sentado por alguns minutos. Abrigamos-nos atrás de uns arbustos para amenizar a sensação de frio causada pelo vento gelado nas roupas molhadas. Os tremores eram incontroláveis. Começamos a gritar por socorro, mas não havia ninguém por perto. Já era final da tarde e logo anoiteceria tornando nosso resgate mais difícil.

De repente ouvimos um barulho leve, quase imperceptível. Ficamos em silêncio. O barulho se aproximava. Até que vimos uma pequena linha preta no horizonte. Era uma embarcação. Não podíamos deixar que ela fosse embora. Começamos a pular e gritar. Lentamente, a embarcação foi se aproximando, até que uma canoa com três pessoas chegou até nós. Pararam a uns 20 metros da ilha (parou por quê? Por que parou?). Um homem com cerca de 60 anos, cara de matuto e jeito de embriagado pergunta:

-“O que é que vocês tão fazendo aí?”

(O que é que quatro pessoas, com a roupa molhada e gritando por socorro estariam fazendo numa ilha? Era óbvio que havíamos naufragado!)

Começamos a explicar para eles o que havia acontecido, mas eles não se aproximavam da margem (acho que seu Giraldo estava com cara de pirata com o bigode molhado).

Foi aí que o banco de couro nos ajudou pela segunda vez. Lá estava ele, boiando, próximo à margem, e tornara-se a prova do naufrágio. Os três matutos bêbados então acreditaram na história. Entretanto, a canoa era pequena e iríamos afundar o segundo barco do dia se entrássemos todos nela. Os matutos, então, foram embora dizendo que iriam pedir ajuda para um barco maior (Será que iriam mesmo? Sabe como bêbado é esquecido).

Foram mais alguns minutos de apreensão até que, realmente, veio um barco maior e nos tirou dali. Descemos próximos ao local onde tínhamos embarcado. Os outros pescadores se solidarizavam conosco, principalmente com seu Giraldo, que havia perdido a lancha. Fui embora, molhando o banco traseiro do carro de seu Giraldo (depois de ele ter molhado os nossos…) e com um sentimento de alívio por estar vivo e arrependido por ter entrado naquela lancha, e ansioso para contar a aventura para vocês.  Essa foi a minha primeira experiência de pesca subaquática. Na próxima levarei snork, roupa de neoprene e arbalete.

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