Série Paradesporto: Esgrima

Diferente do que muitas pessoas possam pensar um cadeirante ou um portador de doença física, é alguém capaz de exercer atividades diversas, são pessoas que têm limitações, mas que não devem usar isto como empecilho para ir atrás de seus sonhos e de superar dificuldades. Os caminhos para se chegar são vários, muitas vezes é preciso escolher o mais difícil, mas de qualquer forma, o destino é o mesmo.
É pensando desta forma, sempre sorrindo, com um bom humor invejável, inteligência e força de vontade, que o professor de informática e atleta, Sandro Colaço leva sua vida. Em 1999, mais precisamente no dia 15 de agosto, ele decidiu desmanchar uma casa antiga que possuía, e uma parede de alvenaria caiu em cima dele. Com o peso, Sandro fraturou a coluna, fazendo uma lesão na L1 e L2 e a perna esquerda. Com certeza, sua vida mudou. “Os dois primeiros anos são os piores, pois é a fase da adaptação. É o período em que não entendemos o que aconteceu que não acreditamos e a esperança de que algo vá mudar, permanece em nossos pensamentos. A sensação é de que é algo passageiro, mas, passado dois anos, sem mudanças, passamos a aceitar tudo o que aconteceu. Definitivamente, a ajuda da minha família foi muito importante”, ressalta.

Ao contrário do que médicos e fisioterapeutas disseram, Sandro evoluiu, era garantia por parte da equipe que ele jamais ficaria de pé e jamais andaria outra vez. Até mesmo que seria impossível ele ter filhos. “Os médicos chamaram minha atual esposa, minha sogra e minha mãe e disseram que não era para deixar com que casássemos, pois poderia ser uma atitude de pena. Disseram que eu jamais poderia dar filhos à minha esposa. Nós casamos e temos uma filha linda. O problema é que a maioria dos médicos só acredita naquilo que os livros dizem, não acreditam em superação, em forças maiores. Mas eu não acreditei em nada disso, eu fui em busca daquilo que eu acredito e deu certo. Hoje eu posso andar, tenho o meu carro, dou aulas, terminei a minha faculdade de Sistema de Informação, enfim, levo uma vida normal”, destaca Sandro.

Mas, o que realmente ajudou na sua evolução foi o esporte. Em 2006, conheceu um amigo que havia sofrido um acidente de moto, no ano anterior, por ser recente, ele estava muito depressivo e passou a convidar Sandro para conhecer o basquete. “Como eu tinha carro, era mais fácil a locomoção até o local, mas eu estava sempre tão ocupado, que nunca encontrava tempo. Mas, como eu percebi que ele estava piorando, em um sábado decidi acompanhá-lo. Este foi o meu primeiro contato com o esporte”, comenta Sandro.
No início era apenas um hobby, depois, com o tempo, passou a praticar regularmente até que decidiu participar de competições de basquete.
Para compreender bem, o basquete adaptado foi o primeiro Paradesporto a ser trazido para o Brasil. Para se praticar, é preciso que o paciente tenha os movimentos do braço. Em relação à deficiência cerebral e dos membros inferiores, não interfere.
Mas, o esporte que realmente, como Sandro diz, corre em suas veias, é o vôlei. “No mesmo ano em que comecei a praticar o basquete, tive contato com o vôlei para amputados. Para praticar, é preciso ter o movimento do tronco. É um esporte praticado no chão, sentado, e por eu não ter os movimentos para baixo da cintura, eu acabava ficando com bolhas, então me permitiram praticar com uma almofada. Este esporte foi fundamental na minha reabilitação. Quando estamos praticando qualquer modalidade, com tanto que seja algo que nos faça bem, esquecemos de nossas limitações, não pensamos em nossos problemas, apenas queremos nos esforçar para conseguir ir cada vez mais longe. E foi o que eu fiz, eu segui o meu sonho, me tornei um dos melhores levantadores do Brasil, joguei pela Seleção Brasileira e me realizei”, relembra.

Entretanto, a deficiência não permitiu que Sandro evoluísse mais, por não ter mobilidade. Então, ele decidiu buscar um esporte individual, em que ele dependesse apenas dele mesmo para vencer ou perder, foi quando Sandro conheceu a esgrima.

A esgrima é um esporte olímpico, é uma modalidade tradicional que está presente nos jogos olímpicos desde sua primeira edição em 1896, na Grécia. É jogado por duas pessoas que utilizam o florete, a espada ou o sabre para ataque e defesa.

O educador físico, Ivan Marangon Schwantes, teve contato com o esporte desde criança. “Meu avô e meu pai eram esgrimistas, eu sempre acompanhei meu pai em suas competições, foi um interesse natural”, explica.

Quando cresceu, Ivan seguiu para a área esportiva e se formou em educação física. Entretanto, nunca tinha tido contato com a esgrima para deficientes físicos, até 2008. “Eu vi que abriu vaga para um curso de capacitação para trabalhar com cadeirantes. Eu decidi participar. Tivemos a presença de um mestre francês muito conceituado e também foi quando tive meu primeiro contato com os atletas cadeirantes, pois eles participaram do curso, para que pudéssemos exercer na prática as atividades. Foi lá que conheci todos eles”, ressalta Ivan.

Entretanto, Ivan ainda treina e compete, o que o impediu de encontrar um horário para dar aulas. Mas, em 2010, ele finalmente conseguiu. Inicialmente eram apenas 1h30 de treino, duas vezes por semana. “Depois de um campeonato nacional em Porto Alegre decidimos intensificar os treinos e começamos a treinar de segunda a sexta-feira”. Na visão do educador físico, o esporte, de forma geral, melhora a saúde física e mental em todos os sentidos. “A saúde e a qualidade de vida aumentam, como todos sabem, entretanto, para os cadeirantes, existe um quesito a mais, a auto-estima. Por estarem em competições, viajam mais, conhecem pessoas e isso é fundamental para que o a auto-estima se eleve”, fala Ivan.

De acordo com ele, muitos dos seus alunos começaram em associações os treinamentos, como forma de reabilitação. Com o passar do tempo, começam a gostar e se tornam atletas de alto nível, como é o caso de Sandro.

Ele iniciou em março de 2010 os treinos e em maio, do mesmo ano, foi para seu primeiro campeonato, em Porto Alegre. “Eu ganhei duas medalhas de bronze, uma em espada e a outra em florete. Todo mundo diz que é sorte de principiante, eu concordo”, ri o atleta.
Atualmente, Sandro está em 4º lugar no ranking nacional. Em abril deste ano (2011) ganhou medalha de prata na Copa do Brasil. Entretanto, eles não contam com nenhum patrocínio, a maioria dos atletas precisa tirar o dinheiro do próprio bolso para ir para competições e treinar. “A única coisa que temos é um plano de saúde oferecido pela Unimed. Eu tenho uma bolsa do governo municipal de R$1.500,00 pelos meus rendimentos, que eu posso usar para comprar materiais e viagens. O meu uniforme custa R$1.600,00”, ressalta.
Mas, este não é um motivo para que Sandro desista. “O esporte é tudo na minha vida”.

Além de ser atleta, Sandro também dá aulas de informática e, durante a aula, ele faz questão de usar seu exemplo para incentivar as pessoas, para que elas mudem seus pensamentos. “É preciso que elas entendam que têm sim, limitações, mas não são incapazes. E para mim, é gratificante ensinar e poder ver a evolução de meus alunos”, finaliza.

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