Os desafios de treinar para o Ironman

O Triathlon surgiu em San Diego no ano de 1974 num clube de atletismo que, ao dar férias para seus atletas, passava uma lista de treinamentos que constava principalmente de exercícios de natação e ciclismo para que os atletas descansassem um pouco dos treinos e competições de atletismo. Ao voltarem das férias, os treinadores faziam um teste com seus atletas, para saberem se eles tinham cumprido o treinamento.
Estes atletas teriam que nadar 500 metros na piscina do clube, pedalar 12 km em um condomínio fechado existente ao lado do clube e, finalmente, corriam 5 km na pista de atletismo. Os atletas gostaram tanto da ideia que pediram para os treinadores repetirem a dose nas férias seguintes, porém, convidando os salva-vidas de San Diego para um desafio.
A brincadeira contou com 55 participantes e os atletas levaram nítida vantagem. Para as férias seguintes, 1976, os salva-vidas propuseram algumas modificações: natação no mar com aproximadamente 700 metros, ciclismo na avenida da praia e arredores com 15 km de distância e uma corrida de Cross Country de 4.5 km.
Desta vez participaram da prova 95 pessoas. Estas pessoas gostaram tanto da disputa que no mesmo ano repetiram por mais três vezes o desafio. Assim surgiu o Triathlon, que passou por várias modificações até a forma olímpica atual, idealizada em 1982 visando ser esporte de demonstração nas Olimpíadas de Los Angeles (1984), mas, por motivos políticos teve que aguardar mais 16 longos anos para fazer sua estréia olímpica.
Erradamente contam que o Triathlon surgiu no Hawai. Na realidade, foi lá que se deu início ao Ironman, uma das provas mais extenuantes do planeta e que apresentou, definitivamente para o mundo, este esporte maravilhoso e apaixonante. O Ironman tem as distâncias de 3.8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida.

Sendo assim, para praticar e se dedicar a esta modalidade esportiva é preciso mesmo muita paixão. E é exatamente desta forma que o médico traumatologista, Daniel Carvalho, define seu interesse por este esporte. “Desde pequeno fui apaixonado por bicicleta, praticava ciclismo e Mountain Bike em 1990 (aos 12 anos) e conheci o triátlon nesta época, quando cruzava com ciclistas de estrada treinando para as provas. Naquela época, havia poucas provas de triátlon em Santa Catarina e eram provas de curta duração, ou seja, Sprint triathlon (nadar 750 metros, Pedalar 20 km e Correr 5 Km) e Triathlon Olímpico (nadar 1500 metros, Pedalar 40 km e Correr 10km). Na mesma época conheci a prova Ironman pela televisão que, até então, só ocorria em alguns países, cuja distância percorrida era quase 10 vezes um Trithlon Sprint, (nadar 3800m, pedalar 180km e correr 42 Km). A prova principal acontece, anualmente, no Hawaii, há mais de 20 anos. Achei, inicialmente, completamente insano, mas lembro que naquela época, botei na cabeça que algum dia completaria o Ironman”, relata.

IRONMAN BRASIL 2010 - Florianopolis/SC

Daniel pratica ciclismo há 20 anos e corridas há 8, entretanto, apenas há 2 anos e meio começou a se dedicar ao Triathlon. Mas, com tanta dedicação ao esporte, como fica a carreira de médico, que requer muito tempo e, principalmente, a família?  “Bom, treinar para provas longas (meio Ironman e Ironman) exige muita dedicação e sacrifícios. Não tenho filhos e minha noiva pratica esportes também, o que facilita um pouco. Mesmo assim, são muitas festas que deixo de ir. Dificilmente consigo assistir televisão e fazer algumas atividades simples, tais como acordar cedo, tomar um café com calma, ler o jornal, dirigir para o trabalho, almoçar com a família. Um dia normal de alguém que treina para o Ironman e é médico, começa às 4h da manhã, tomando um ‘café da manhã’ com whey protein, carboidrato em gel, isotônico, uma pedalada de 90 km, ou seja, 3 horas. Às 8h da manhã devo estar no consultório como qualquer médico. No fim da tarde, ao invés de um happy hour com os amigos, tenho que correr mais 18 km. Nos fins de semana, quando não tenho plantão, nada de ir à praia para descansar, entro no mar para nadar 2000m, enquanto a turma se bronzeia. O mais difícil do Ironman, não é o dia da prova em si, mas sim os seis meses que a antecedem”, ressalta Daniel.

Num dia de inverno, em 2009, às 6h da manhã, para começar o treino de nado em Jurerê. Daniel saiu do plantão noturno e foi para a água gelada. Florianopolis SC

Entretanto, a parte mais difícil destaca pelo médico é a residência, pois este é um período bastante conturbado e que também exige dedicação. “A residência médica é um período bastante conturbado na nossa vida. Ortopedia e Traumatologia compreendem três anos de residência, sendo que a carga horária no primeiro ano foi tão puxada, que o máximo de exercício que eu conseguia fazer era subir as escadas do hospital. No segundo ano, um pouco mais tranquilo, eu conseguia ir para o hospital de bicicleta e participei de algumas provas de corrida, dentre elas minha primeira maratona. Mesmo assim, a alta carga horária e de estudos, impediam um treino adequado. Lembro que nesta maratona, eu perdi 4 kg durante a prova (a maioria liquido) e completei em 4h e 30 min praticamente me arrastando. Não recomendo isto para ninguém. No terceiro ano, a carga de trabalho diminui, mas a de estudos aumenta, pois ao fim do ano existe a prova de título de especialista, que é bastante complexa; logo a pratica de alguma atividade física era fundamental para reduzir o estresse psicológico”, explica Daniel.

A vantagem de não ser um atleta profissional é que as competições são encaradas por ele como um momento de diversão e como uma forma de superar seus limites.

“O clima de competição é algo extremamente estimulante. Tenho um treinador, Gustavo Pinto, que me manda os treinos online e eu repasso os feedbacks (quando tenho tempo). Participo, normalmente, de 2 a 3 competições ao ano. Em 2010 foram dois meio-ironmans e o meu primeiro Ironman. Os treinos normalmente ocorrem em duas partes. De manha cedo natação ou ciclismo e final da tarde ciclismo, musculação ou corrida. Aos sábados, os treinos ocorrem na praia de Jurerê e envolve as três modalidades, onde vão todos os atletas da Gustavo Pinto assessoria desportiva, inclusive o próprio treinador. Domingo é o day off. Faltando 3 meses para as competições, entramos no período chamado pré competitivo,onde a carga dos treinos aumenta e as dores e o cansaço também, mas é bastante recompensador. Depois de um treino forte de natação nas quartas-feiras, por exemplo, eu faço cirurgia e me sinto muito bem operando, mais focado inclusive. Quando “mato” um treino, fica aquele peso na consciência, como não ter escovado os dentes antes de dormir. Este ano estou treinando com bastante freqüência, mas com menos intensidade, pois farei apenas um meio-ronman. As inscrições para o Ironman Brasil que ocorrerá final de maio em Floripa, esgotam-se rapidamente”, lamenta-se Daniel.

Long Distance - Caiobá/PR 2010

Outro quesito muito importante para este tipo de atividade é a alimentação adequada, sempre com o acompanhamento médico e nutricional. “Esta para mim é a parte mais difícil. A dieta tem que ser bem especifica, com muito carboidrato e nas horas certas. A dieta durante a prova também deve ser bem planejada. Um Ironman pode durar de 8h (os melhores profissionais) até 17 horas. No meu caso são 12 horas e 37 min. E nesta prova, queimam-se cerca de 6500 Kcal. Muitas pessoas “quebram” no meio da prova por alimentação incorreta e, principalmente, por desidratação e câimbra. Por isso me consulto sempre com um nutricionista especialista em nutrição desportiva”, alerta o médico.

Para quem deseja começar a praticar este esporte, é preciso começar de forma correta para não se lesionar e para não acabar desistindo no meio do caminho, por falta de preparo. “Primeiro é preciso saber o tipo de prova que se deseja participar, se são as de curta ou longa distância, pois a rotina, os treinos e o estilo de prova são completamente diferentes. Segundo: Dedicação e disciplina. Completar um Ironman deve ser encarado como um grande empreendimento e, pra quem parte do zero, leva-se de um a dois anos no mínimo de preparação. Terceiro: SEMPRE usar assessoria desportiva: treinador, nutricionista e assistência médica. As dores nos triatletas são uma constante e não podem ser ignoradas. Triathlon é um esporte bastante completo, porém, os treinos, muitas vezes, são bastante solitários, fator este que desestimula muitas pessoas. Para quem vai começar e nunca teve o contato com a prova antes, vale a pena assistir a uma prova de longa distância. A sensação que os atletas transmitem ao cruzar a linha de chegada é indescritível”, finaliza.

Long Distance Caiobá/PR - 2009

Fonte: CBTri – Confederação Brasileira de Triathlon

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s