A ascensão do MMA no Brasil – A luta tira crianças da rua

A realidade de muitas crianças brasileiras, infelizmente, não é aquela esperada para elas. Uma grande parte delas não aproveita esta fase como deveriam: brincando, se divertindo e indo à escola.

O cenário em que vivem é de muita violência, de tristeza, tráfico de drogas e, além disso normalmente elas têm uma necessidade de crescer e amadurecer antes do tempo, pois só assim poderão sobreviver nas comunidades onde vivem.

No país inteiro existem casos como este, e é assim também no Rio de Janeiro. Ex-morador de uma favela, Daniel Acácio, conviveu de perto com esta realidade dura e assustadora. Entretanto, ele encontrou no esporte um meio de se afastar da violência e das drogas. “Quando eu morava na favela, eu vi muita coisa ruim. Vi meus amigos, um a um, entrar nesta guerra e perder. Mas eu tive a sorte de conhecer o Antônio Formiga, que me ofereceu uma bolsa para treinar”, conta.

Porém, Daniel tinha tudo para entrar num mundo sem volta, pois aos oito seu pai faleceu e, aos nove anos, sua mãe conheceu uma pessoa e foi embora para São Paulo. “Minha mãe se mudou e levou com ela apenas os filhos menores. Eu fiquei, o que me obrigou a trabalhar e me virar sozinho. Eu comecei a trabalhar em uma feira carregando compras para senhoras, depois fui entregador em uma farmácia e, em muitos momentos cheguei a passar fome”, relembra.

Daniel e sua esposa, Renata

Infelizmente, a maioria dos amigos de Daniel morreu, pois todos se envolveram com drogas e, foi esta a sua maior motivação para partir para o lado do esporte, pois não queria ter o mesmo destino. “Depois de ver tudo o que vi, eu só sentia vontade de ir para um bom caminho, ter saúde e, por meio do esporte isso é possível, então foi o que escolhi para a minha vida”, relata.

Há 21 anos ele luta e, há 10 luta MMA profissional. Uma história de superação e de incentivo para outros jovens que, não por vontade e sim por falta de escolha, vivem esta triste realidade em nosso país.

Mas, para quem acha que praticar um esporte que não é muito divulgado em nosso país é fácil, engana-se. Daniel destaca que existem muitas dificuldades. “A primeira dificuldade que encontramos é a de ter um patrocionador, pois precisamos treinar, fazer musculação e necessitamos de suplementação, e é isso que nos obriga a trabalhar, além de treinar e lutar. Se tivéssemos mais patrocínio, poderíamos nos dedicar totalmente ao esporte. E isso nos prejudica pois, quando vamos lutar, precisamos estar com a mente limpa, tranquila, sem ficar pensando em como conseguir dinheiro etc. Outra questão é a da alimentação. Precisamos estar sempre no peso ideal, caso contrário temos que fazer sauna e suar. Quando não conseguimos perder massa, não podemos lutar. E a terceira dificuldade é a estar bem com a família. É preciso estar sempre focado e concentrado, o que nos obriga a ter o psicológico muito bom”, explica.

Mas, como é possível treinar e trabalhar? Daniel ressalta que tem a sorte de ter a compreensão no trabalho. “Eu tive muita sorte, aqui no escritório o pessoal é muito legal comigo. Eu tenho três horas de almoço, diferente do restante dos meus colegas. E é nessa hora que eu treino. Para sobreviver apenas da luta, seria necessário que eu lutasse uma vez ao mês, no mínimo, mas não existem muitos campeonatos, o que torna isso quase impossível”, fala.

Além de treinar na hora do almoço, o lutador também pratica, na parte da manhã, o MMA específico, das 11 às 13h. E no final da tarde vai para a musculação, corrida e spinning, das 17 às 19h. Após, das 19h30 às 21h ele tem aula de jiu-jitsu.

Fonte: Sherdog - Greg Samborski

Porém, tanto esforço não é em vão. Daniel é dono do cinturão na competição Superior Challenge, que acontece na Suécia. A primeira vez que lutou neste país, foi na categoria de 90 kg e foi campeão por decisão unanime dos juízes. No ano seguinte ele foi chamado novamente para participar do campeonato na categoria 77 kg e foi quando Acácio conquistou o cinturão. “O público gostou muito da minha luta e me apelidou de The Viking Hunter, o caçador de vikings. Foi algo muito marcante e bom para a minha carreira. E agora, no dia 30 de abril, vou novamente para a Suécia defender meu cinturão conta o Diego Gonzales. Em seguida, em maio, irei para o Bitetti Combat, no Rio de Janeiro e em junho irei para a França lutar”, ressalta.

Todavia, ficar longe da família não é fácil.  Com tantos treinos, trabalho e viagem, onde fica o espaço para a esposa e os filhos? Daniel diz que o coração fica apertado quando precisa se ausentar. “Eu tenho quatro filhos e, um deles, está com dois meses. É difícil sair e deixar uma pessoa tão pequena. Com os outros três também é difícil, mas com o neném sinto mais ainda. Quando eu chego em casa, eles estão dormindo. Em dia de semana eu levo eles para a escola, e é o momento que tenho com eles. Por isso, nos finais de semana eu me dedico à família. Mas, todo este esforço vale a pena, pois eu luto pela minha família, porque quero dar o melhor a eles. Não quero que meus filhos passem por nada do que eu passei, quero que tenham uma infância e uma vida melhores que a minha. Quero dar uma boa estrutura e deixá-los bem encaminhados, para quando eu não estiver mais aqui, eles possam seguir fazendo coisas boas e certas”, emociona-se.

Daniel e seus filhos

Daniel e seus filhos

A verdade é que, apesar de pouco divulgado ainda, o MMA cresceu de forma considerável em nosso país e, segundo Daniel, isso aconteceu porque hoje a luta é feita com regras e de forma limpa. “No início o esporte era taxado como carnificina e era algo feio de se ver, não dava para levar os filhos para acompanhar, por exemplo. Mas, com o passar do tempo, foram aumentando as regras e os cuidados com a saúde dos atletas. Hoje, quem cai no dopping, o que é bem fácil, pois fazem um exame bem rigoroso, fica um ano afastado como punição. A comissão médica que acompanha é muito competente e, antigamente não existia isso. Atualmente também é proibido chutar o adversário após ele cai no chão, o que antes era permitido. Os juízes que acompanham as lutas, quatro no total, podem intervir no combate a hora que julgarem necessário. A verdade é que, quem está começando agora, está vendo uma realidade totalmente diferente, estão pegando tudo ‘mastigado’. E as condições de bolsas para os atletas também são bem melhores do que eram”, destaca.

Entretanto, ainda falta muito para que o MMA ganhe seu espaço e o destaque merecido. Na opinião de Daniel, seria bom se os empresários se interessassem mais, mas a visão da grande maioria é de que o esporte é praticado por pessoas desocupadas. “Os empresários vêem os lutadores como pessoas largadas, entretanto não é verdade, pois nós trabalhamos e treinamos todos os dias. E é preciso que eles enxerguem isso, que eles tenham consciência em relação ao esporte para que possam nos ajudar mais. Na Rede TV, por exemplo, quando passa uma luta, a audiência aumenta consideravelmente, ou seja, se passassem um campeonato, por exemplo, imagina o que aconteceria com esta audiência”, finaliza.

Fonte: Sherdog - Maciej Okraszewski

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