Série Paradesporto: Bocha ou Boccia

O jogo de bocha representa um dos esportes mais desafiadores e de significativo crescimento em todo o mundo, principalmente, por ser uma modalidade direcionada a pessoas que apresentam um quadro severo de disfunção motora, propiciando uma verdadeira condição de inclusão e igualdade de participação com outros alunos sem deficiência.
Existem muitas versões quanto à origem do jogo tradicional. A maior referência é que seja uma adaptação para quadra fechada do jogo italiano de boliche em grama. Encontram-se também referências que estabelecem uma analogia com um jogo francês (Pentaque) que se desenvolveu e foi praticado em 1910, no balneário La Ciotat, próximo a Marselha.
Mas, somente nos anos 1970, este esporte foi resgatado pelos países nórdicos com o fim de adaptá-lo a pessoas com deficiência.
No início era voltado apenas para pessoas com paralisia cerebral, com um grave grau de comprometimento motor (os quatro membros afetados e o uso de cadeira de rodas). Atualmente, pessoas com outras deficiências também podem competir, desde que inseridas em classe específica e que apresentem o mesmo grau de deficiência ou similar ao da paralisia cerebral, ou seja, um quadro de tetraplegia. Ex.: Distrofia Muscular Progressiva, AVC, ou dano cerebral com função motora progressiva, e outras.
O jogo de bocha é um jogo competitivo que pode ser praticado individualmente, em duplas ou em equipes. A partida é realizada com um conjunto de bolas de bocha que consiste em seis bolas azuis, seis bolas vermelhas e uma bola branca, em uma quadra especialmente marcada de superfície plana e lisa. A sua finalidade principal é a mesma do bocha convencional, ou seja, encostar o maior número de bolas na bola-alvo.

As vertentes deste jogo vão do lazer e recreação ao mais alto nível de competição e está, neste âmbito, reconhecido pelas entidades oficiais de nível mundial, elegendo-o como desporto paraolímpico.
No Brasil, o jogo de bocha ficou conhecido a partir de 1995 quando dois atletas, inscritos para o atletismo nos Jogos Pan–americanos de Mar Del Plata, aceitaram participar, de improviso, da competição de bocha visando à aprendizagem para posterior implantação da modalidade. Eles obtiveram o 10º lugar em duas categorias, surpreendentemente. Em junho de 1996, dando prosseguimento ao Programa de Fomento Esportivo, a ANDE lançou o Projeto Boccia para Portadores de Paralisia Cerebral Severa, em Curitiba, quando se fizeram representar cinco Estados: Paraná, com duas entidades; Rio de Janeiro, com cinco entidades e Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo com uma entidade cada.

O jogo de bocha é uma modalide que pode ser praticada por pessoas de todas as idades e de diferentes tipos de deficiência. Pode ser jogado de forma recreativa, como esporte competitivo, ou como atividade de educação física nos programas escolares.

O jogo requer planejamento, estratégia na tentativa de colocar o maior número de bolas próximas da bola-alvo, desenvolvendo e aumentando, entre outras funções, a capacidade viso-motora. Finalmente, a bocha é uma atividade na qual, indivíduos com grau de deficiência motora grave podem participar e desenvolver um elevado nível de habilidade. O jogo pode ser facilmente adaptado para permitir que jogadores com limitação funcional usem dispositivos auxiliares, tais como rampas ou calhas e capacetes com ponteira.
A habilidade e a inteligência tornam-se fundamentais no desenvolvimento das jogadas, assistindo-se muitas vezes a um verdadeiro espetáculo de alternância da vantagem, pela aplicação de técnicas e táticas adequadas a cada circunstância.

O jogo de bocha foi adaptado para atender a pessoas com paralisia cerebral e outros tipos de deficiência que apresentam um grau severo de comprometimento motor. Para tanto, faz-se necessário o agrupamento desses atletas com base na habilidade funcional para tornar o nível da competição o mais próximo possível da igualdade de condições.

Atletas BC1
Para os atletas da classe BC1, também é permitido um auxiliar, mas apenas com a função de entregar a bola para o jogador quando este solicitar por gesto previamente combinado. Oferecer um suporte de segurança se for necessário, assim como o de segurar a cadeira de rodas para que ela não se desloque no momento do arremesso. Deve também auxiliar o retorno do tronco do atleta após o arremesso, caso ele apresente maior dificuldade de controle e equilíbrio. Não é permitida nenhuma forma de diálogo ou comunicação entre eles, exceto do atleta para o auxiliar, quando da sua vez de jogar. O auxiliar deve se colocar fora do box de arremesso durante a partida.
Atletas BC2 e BC4
Para os atletas BC2 e BC4, não é permitido nenhum tipo de ajuda externa. O que ocorre com frequência é a adaptação de um suporte ou cesto para as bolas, fixo ou não na cadeira de rodas, de modo que facilite ao atleta de pegar as bolas para arremessar. Isso é muito utilizado em atletas da classe BC4 com lesão medular e com grande comprometimento nos quatro membros.
Este esporte, hoje, é parte integral da vida de Eliseu Santos, que até os dez anos, ele levava uma vida normal. “Nasci com uma doença chamada Distrofia Muscular de Becker, uma doença genética que ataca os músculos do corpo e provoca encurtamentos. A minha distrofia começou a se desenvolver quando eu tinha dez anos. De lá, até os quinze anos, tive a fase da revolta, e elegi minha mãe e minha avó como culpadas, mesmo elas fazendo tudo que podiam, me dando amor e carinho. Quando consegui entender que ninguém tinha culpa chamei-as, me desculpei e prometi que começaria a lutar contra minha doença”, conta.

A partir daquele momento, Eliseu teve mudanças em sua vida. “Devo isso também à minha família e aos meus amigos, que nunca deixaram eu me sentir diferente, sempre me trataram como se eu não tivesse deficiência. Até os dezoito anos ainda conseguia jogar bola, terminei meu ensino médio com ajuda de meus amigos e da minha família que me ajudavam a ir para o colégio, pois eu precisava segurar no ombro de alguém para ter equilíbrio. Andei até 2002, mas já tinha muita dificuldade. Foi quando eu fui para a cadeira de rodas, o que melhorou minha locomoção e permitiu que eu saísse de casa”, comenta o atleta.

A vida esportiva, no entanto, começou em 2005, quando conheceu a ADFP (Associação dos Deficientes Físicos do Paraná) a convite de um amigo. “Primeiramente fui para o atendimento de fisioterapia, mas esperava encontrar algum esporte que eu pudesse praticar. Eu sempre acompanhava os treinos de bocha que aconteciam num salão ao lado da sala de fisioterapia, não entendia o jogo, mas achava interessante”, destaca Eliseu.

Enquanto acompanhava um dos treinos, o técnico Darlan França Ciesielski Junior, que hoje é técnico da Seleção e da equipe da ADFP, convidou Eliseu para conhecer melhor o esporte. “Eu aceitei o convite, fiz alguns testes e comecei a treinar, e a pegar gosto pelo esporte. Percebi que a bocha seria ideal para mim porque não necessita de força e agilidade, e sim precisão nos movimentos. É o esporte para pessoa com maior grau de deficiência”, explica.

Após três meses de treinamento, Eliseu foi para sua primeira competição, o Campeonato Brasileiro de Bocha, que aconteceu em Alfenas, MG. “Fui mais para aprender, e conquistei a, até então inesperada, medalha de bronze. Com essa medalha fui convocado para seleção, pois o critério foi levar os três atletas melhores colocados no brasileiro. Nesta viagem descobri que a bocha era para um esporte presente nas Paraolimpíadas, e assim eu estava realizando um sonho: ir para alguma Paraolimpíada”, relembra o atleta.
Desde então, Eliseu se dedica ao esporte e, durante sua jornada, vem conquistando diversas medalhas e, dentre suas premiações, a maior delas foi ganhar ouro e bronze nos Jogos Paraolímpicos de Pequim, em 2008. “Além de todas as conquistas, o esporte me proporcionou uma grata surpresa, foi num treino que conheci a minha esposa que foi acompanhar o primo dela que também é atleta, isso aconteceu logo depois da Paraolimpíada”, orgulha-se.
Eliseu finaliza dizendo que não imaginava que poderia praticar esporte e que a bocha veio para complementar sua vida. O que o incentivou foi perceber que sua família sentia orgulho dele. E ter representado o nosso país fez o sonho de menino, que era de jogar futebol e ir para Seleção.

Fonte: Manual de Orientação para Professores de Educação Física

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