Alpinismo: um esporte que envolve técnica e paixão

Fazer parte de um trabalho pioneiro dentro de um esporte, que no Brasil não é muito popular, não é para qualquer um. O alpinista nascido em Foz do Iguaçu e residente da cidade de Curitiba, Waldemar Niclevicz, foi o primeiro brasileiro a escalar o Everest, o K2 e os Sete Cumes do Mundo. “Ganhar notoriedade no Brasil é difícil, principalmente quando o atleta pratica um esporte que não é popular no país. Mas, senti que houve uma evolução no alpinismo e fiz parte disso dentro do Brasil. Embora o esporte não seja tão conhecido, num nicho de praticantes já é bastante difundido, pois quase toda grande cidade brasileira já tem pelo menos uma academia de escalada e o público tem acesso a pratica e a técnica de escalada em rocha”, comenta.
Waldemar é alpinista profissional há 24 anos e considera o alpinismo de alta montanha sua modalidade preferida. “O K2 é a conquista mais relevante da minha carreira, é considerado a montanha mais difícil do mundo, por isso é bastante significativo para um atleta estar inserido nesse contexto”, conta.

O alpinista explica que há diferença entre o profissional e o amador. Porque a maioria das pessoas que pratica escalada eventualmente, tem como objetivo buscar um título dos Sete Cumes e acaba encontrando uma montanha como o Everest, que envolve uma boa parte técnica. “O alpinismo de alta montanha envolve, além da parte física e técnica, também àquela parte relacionada ao ambiente hostil que você atua, caracterizado pelo ar rarefeito, falta de oxigênio e pelo frio extremo. Quanto mais alto, menos oxigênio e mais frio. Geralmente o atleta amador sente muito mais esse impacto, porque não está habituado a freqüentar esse tipo de ambiente”.
Para Waldemar, a vida tem outro sentido quando a pessoa sabe que tem objetivos, por isso anualmente o alpinista planeja grandes expedições. “Esse ano, 2011, fiz duas grandes viagens: em fevereiro, escalei o Salto Angel, que é a maior cachoeira do mundo, localizado no Sul da Venezuela, próximo a fronteira com o Brasil. A cachoeira tem 979 metros de altura e o paredão tem 1.100 metros de altura em ângulo negativo. Foi a quarta vez na história que essa parede foi escalada por uma equipe brasileira e para nós é um grande orgulho. Também estive na Itália, em agosto, escalando as Dolomitas, que é um dos berços da escalada mundial em rocha”, destaca.
Porém, não adianta apenas tomar a decisão e planejar uma grande expedição sem um preparo físico e psicológico para enfrentar todas as dificuldades encontradas numa montanha de oito mil metros. Atletas profissionais como Waldemar Niclevicz precisam estar preparados sempre. “Meu treinamento é muito vinculado ao meu próximo objetivo. Encaro os treinos com seriedade e aprendi a importância da disciplina no treinamento aos 14 anos, quando comecei com o atletismo. Faço questão de acompanhamentos profissionais, porque é muito difícil o atleta avaliar o próprio desempenho ou melhorar sozinho fazendo uma auto-análise. Por isso, é muito importante ter um profissional de fora, capacitado para fazer essa avaliação. Quanto antes o atleta entender a importância desses profissionais, mais rápido vai conseguir superar todos os problemas”, explica o alpinista.

O alpinismo é um esporte complicado, que requer disciplina, concentração e muita força. “Se eu quero escalar uma montanha de oito mil metros com tranqüilidade e desenvoltura, preciso me preparar melhor fisicamente, materialmente e psicologicamente para desfrutar daquele momento. Estou sempre em treinamento, nunca deixo de correr, nadar e escalar. Quando tenho um objetivo maior em vista, começo um treinamento mais disciplinado, visando aumentar minha força física ou resistência ou capacidade pulmonar ou técnica em rocha ou, ainda, resistência a longas caminhadas. Para levar um treinamento a sério, também é necessário renunciar algumas coisas, por exemplo, você não pode ter uma vida social muito agitada, precisa de disposição para treinar e regras na alimentação”, complementa Waldemar.
Expedições como essas duram em torno de dois meses, porque um dos maiores problemas a serem enfrentados pelos alpinistas é o ar rarefeito das altas montanhas. “O problema é a aclimatação, que depende de cada pessoa e organismo para se acostumar com as mudanças. O organismo, na forma natural, sem drogas, como o vaso dilatador, por exemplo, precisa um tempo para se adaptar e esses medicamentos só trazem satisfação momentaneamente. O ideal é que o organismo esteja no máximo da sua performance física, por isso não adianta estar bem fisicamente se o desempenho no ar rarefeito não está bom”, explica o alpinista.

A alimentação também faz parte desse processo de adaptação e bom rendimento dentro do esporte. “Os alimentos devem suprir as necessidades calóricas que você gasta, para isso, é importante fazer um cardápio de acordo com o tempo que vai ficar na montanha. Proteína, gordura e carboidrato são importantes, principalmente carboidrato, porque é fonte de energia e muito liquido. Quanto mais alto, mais frio e seco é o ar. E, nas montanhas, você tem que derreter a neve para fabricar o líquido e adicionar sais para que o organismo possa retê-lo. A alimentação é bastante séria e muito importante, porque você está desempenhando uma atividade de risco, num paredão, num precipício e é preciso estar alerta, com bons reflexos. É normal a falta de apetite, por isso, é preciso evitar alimentos com cheiro forte, porque dá náuseas e nunca levar apenas um tipo de comida. O ideal é sempre variar nos sabores de barras de cereal, por exemplo. Se você não se obrigar a se alimentar, o rendimento cai muito”, destaca Waldemar.
As expedições feitas pelo alpinista e sua equipe são programadas de acordo com a época de cada montanha. No Himalaia, por exemplo, a época boa para escalar é entre os meses de abril e maio, por isso existe um planejamento enorme, que não depende só do ser humano, mas da natureza. “Quando decido ir para um destino, envolvo pessoas e preocupação com a parte financeira. Hoje ir para o Himalaia, por exemplo, custa caro: comida para dois meses, passagem área, equipe de apoio, bom cozinheiro, infra-instrutora, equipamento técnico, barracas, entre outros. Por isso, não abro mão da minha atividade, as montanhas me conduzem, são a luz da minha vida. Meu foco sempre foi a montanha, está no meu sangue, tenho essa convicção e claramente as pessoas observam isso. É inimaginável pensar em parar”, ressalta o alpinista.

O alpinismo, além de ser uma paixão, é o aliado de Waldemar nas palestras motivacionais que faz para empresas. “Faço um alinhamento do objetivo da empresa com a minha palestra e tento adaptar minha apresentação para o momento que a empresa está vivendo. É um trabalho de consultoria empresarial, visando otimizar os resultados que as empresas gostariam de atingir na parte motivacional ou de resultado. Os principais temas que desenvolvo são: liderança, trabalho em equipe, gerenciamento de risco e uma série de casos inerentes à minha profissão, ao alpinismo e também às empresas. As palestras são baseadas nas minhas experiências. Tenho infinitos estudos de casos, não invento nenhum deles e isso é interessante, porque passa para o público mais veracidade”, conta.
O alpinista acredita que se as pessoas praticassem esporte, teriam uma boa qualidade de vida. A população iria se alimentar melhor, se exercitar e disponibilizar mais tempo para a parte física. “É bem interessante essa transformação psicológica e emocional que acontece com as pessoas quando elas têm um objetivo. Um atleta sempre tem um objetivo, um sonho e vai atrás dele. Para nós, alpinistas, não é um lugar no pódio que almejamos, mas sim uma montanha, uma experiência nova num lugar selvagem, natural”, complementa Waldemar.
Até mesmo para àqueles atletas reconhecidos nacionalmente ou, às vezes, mundialmente, existem dificuldades para se manter no esporte e conseguir um bom patrocínio. Esse problema existe, porque não é qualquer pessoa ou empresa que acredita num projeto relacionado ao esporte. “Praticar esporte no Brasil é visto, ainda, como algo elitizado e não deveria ser assim. Em outros países o esporte é muito mais acessível e enquanto o governo brasileiro enxergar isso como política, não haverá muitas mudanças. O esporte deveria ser tratado como cidadania, pelo menos”, destaca o alpinista.

A prática de atividade física ajuda não só no desenvolvimento físico da pessoa, mas também psicológico. “Acho um desperdício o país gastar tanto dinheiro com grandes eventos, como shows, por exemplo, sendo que esse investimento poderia estar vinculado a um projeto que pudesse beneficiar o esporte, gerando resultados muito mais positivos, principalmente, para a juventude”, comenta Waldemar.
Um dos segredos do sucesso do alpinista é a variedade de atividades que pratica e o amor pelo esporte. “O limite não é a idade. O homem só envelhece ou morre quando para de sonhar. Desde que você tenha um sonho verdadeiro, que venha do seu coração, siga esse sonho, batalhe e a sua vida nunca vai deixar de ter sentido”, finaliza.

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